Saídas de Mergulho
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Nova Descoberta no Sítio do L'Océan
Durante uma missão de formação de âmbito geofísico (Magnetometria - levantamento e interpretação) conduzida pelo Eng. Mikhail Tchernychev, especialista da firma norte americana Geometrics, com levantamento parcial do sítio arqueológico L'Océan foi detectada uma anomalia magnética situada a noroeste do circuito. A anomalia detectada mereceu de imedaito a atenção da equipa presente tendo sido decidido a realização de  um mergulho para tentar determinar a cauas da mesma.

Mais tarde, uma equipa de mergulhadores da Subnauta deslocou-se ao sítio do L'Océan tendo mergulhado no local onde se tinha detectado a anomalia. Durante o mergulho encontrou-se de imediato uma estrutura em ferro a qual foi objecto da fotografia anexa. A referida anomalia magnética revelou ser um joelho, "courbe ou équerre de fer", peça de reforço estrutural que nas palavras de Jean-Yves Blot:

" ...representa de maneira muito clara, desprovida de qualquer ambiguidade, uma curva metálica do tipo utilizada pelos construtores navais militares franceses a partir de meados dos anos 1740. Trata-se de um componente crucial na assemblagem da secção transversal dos navios de guerra da época submetidos a esforços muito importantes tanto a nível estático (massa da artilharia na periferia da secção transversal, junto às portinholas) como dinâmico (deformações da secção transversal associadas ao modo de propulsão a vela, nomeadamente quando o navio navega inclinado). O aspecto "não normativo" de tais curvas faz com que esta técnica não venha referida na volumosa série de Jean Boudriot dedicada ao "Vaisseau de 74 canons" publicada no final dos anos 1970. A presença de uma "courbe ou équerre de fer" entre o espólio do L'Océan constitui uma "surpresa anunciada" devido à referência, repetida e explicita, a este tipo de ligação estrutural metálica nas listas de salvados retirados do mar do Algarve após a batalha de Agosto de 1759.  A transcrição parcial de tais listas manuscritas consta na monografia inédita "A Batalha de Lagos" (JYB/MLPB). Essa "aritmética" dos salvados de outrora refere de maneira muito explicita a recuperação de várias dezenas de tais curvas. Todavia tal documentação antes consultada não permitia saber se tais curvas de ferro provinham dos destroços do L'Océan, de 80 canhões, ou do Redoutable, de 74 canhões, encalhado e incendiado nas mesmas circunstâncias em Agosto de 1759. A identificação de uma curva de ferro no sítio do L'Océan constitui uma informação muito interessante que permite fundamentar doravante a questão da implementação desta técnica no arsenal de Toulon.

Uma campanha que realizei em 1982 no sítio do Soleil-Royal, outro navio de 80 canhões, construído todavia no Atlântico, pela marinha dita de Ponant em contraste com as forças navais do Mediterrâneo francês (Marine de Levant), permitiu-nos atestar a presença dessa mesma técnica (os dados constam no relatório entregue ao DRASM, Marselha). O levantamento submarino foi na altura realizado por Maria Luísa Blot, cujo desenho me permitiu na altura aprofundar a questão junto de Jean Boudriot que contextualizou o achado.

Trata-se portanto de uma prática efectiva, embora não normativa, evidenciada na década anterior num navio de 74 canhões construído em 1741-1744 pela Marine de Ponant (Rochefort) e apresado em 1747 por forças navais britânicas. Tal prática foi pouco depois tornada explícita na obra do autor Duhamel du Monceau e encontram-se ecos de tais soluções estruturais em navios britânicos como o Victory embora a implementação seja ligeiramente diferente. Existe hoje uma bibliografia consistente a esse respeito. O tema leva-nos a lembrar que os primeiros ensaios de curvas de ferro têm lugar no século anterior e que, de alguma maneira, tais elementos metálicos podem ser lidos como o extremo inicio de modos estruturais nos quais o metal invade pouco a pouco o espaço construtivo ocupado até então pela madeira. As curvas de ferro representam uma solução óbvia dos construtores navais de meados do século XVIII confrontados com a escassez de peças curvas em madeira para navios de forte tamanho.

O pormenor da curva de ferro encontrada no sitio submarino do L'Océan constitui um potencial pólo narrativo charneira da visita submarina aos vestígios. Tal presença faz eco a presenças paralelas identificadas em navios franceses do mesmo período, nomeadamente o Celebre, de 64 canhões, cujos destroços, ainda hoje visitáveis pelo público mergulhador (Louisbourg, Nova Scotia), compreendem pelo menos duas curvas de ferro simétricas, conforme depreendido no desenho arqueológico disponível.
Tais peças (iron knees, em inglês) constituem fósseis directores decisivos para a identificação de sítios de naufrágio de origem militar para o período e excelentes marcadores potenciais da própria diacronia de um sítio submarino: pela sua posição periférica (nesta fase da interpretação dos destroços ao largo da Salema), a curva identificada pode reflectir o sitio primário ( o navio no momento do encalhe e incêndio posterior) ou secundário (quando o navio rodou sob o efeito conjugado da maré, da onda e do vento), aspectos cuja discussão implica uma análise (espacial) ponderada do conjunto dos dados hoje conhecidos."